Compliance financeiro: um escudo contra o risco reputacional nas instituições

Publicado em 27/01/26 | Atualizado em 27/01/26 Leitura: 12 minutos

Compliance

Home > Blog >

Compliance financeiro: um escudo contra o risco reputacional nas instituições
compliance financeiro

Se antes o compliance financeiro era visto apenas como um mecanismo de controle, hoje ele representa um ativo fundamental nas instituições, sendo um dos principais pilares para garantir a segurança, continuidade operacional e proteção reputacional do ecossistema.  

Com a expansão dos métodos de pagamento, a digitalização acelerada e a sofisticação dos crimes financeiros, a responsabilidade das instituições também foi redefinida, exigindo padrões de integridade cada vez mais elevados. Decisões regulatórias recentes, como o fortalecimento do mecanismo de devolução do PIX (MED), a expansão das regras aplicadas às fintechs e a exigência de abordagens baseadas em risco, reforçaram a urgência de programas de conformidade mais robustos e integrados às operações de prevenção. 

Neste artigo, reunimos tudo o que as instituições precisam saber sobre compliance financeiro, trazendo contexto regulatório, práticas essenciais e estratégias para implementar controles eficazes que protejam a reputação, aumentem a confiança de clientes e parceiros e reduzam riscos críticos na operação.

 

O que é compliance e como ele se aplica no setor financeiro

Por definição, compliance refere-se ao conjunto de pessoas, ações e procedimentos destinados a garantir que uma organização esteja em conformidade com leis, regulamentos, normas e padrões. No sistema financeiro, ele se desdobra em diversos eixos: prevenção à fraude, combate à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, governança corporativa, proteção de dados, colaboração com o mercado, transparência e controles internos.

Ou seja, o compliance financeiro apresenta um nível de complexidade que não se limita a assegurar o cumprimento de regras. Ele precisa prevenir comportamentos que possam gerar prejuízos financeiros e reputacionais, integrando processos, tecnologias, políticas internas, cultura organizacional e monitoramento contínuo da operação. 

Compliance vs Due Diligence

Embora muitas vezes sejam tratados como sinônimos, compliance e due diligence não representam a mesma coisa. O compliance é o programa guarda-chuva, contínuo e estruturado, que define como a instituição previne, identifica e responde a riscos regulatórios, operacionais e reputacionais.

Dentro desse programa, a due diligence atua como um dos seus pilares fundamentais, responsável por executar, na prática, as diretrizes de compliance. Ela está focada na avaliação detalhada de clientes, parceiros, fornecedores, operações e transações específicas, com o objetivo de identificar e mitigar riscos antes do início de um relacionamento ou da execução de uma operação. 

O due diligence pode se manifestar em processos como a validação de identidade, análise de perfil de risco, investigações em casos de suspeita de fraude ou lavagem de dinheiro, por exemplo. 

Resumindo, o compliance estabelece as regras e políticas gerais de integridade e prevenção de riscos, e o due diligence opera essas regras de forma prática e granular, garantindo que cada cliente, parceiro ou transação esteja alinhado aos padrões da instituição e à legislação vigente. 

Os resultados do due diligence podem inclusive ajudar a ajustar políticas e controles, tornando o compliance e o processo de gestão de riscos mais eficientes e proativos.

compliance financeiro

 

Compliance financeiro no Brasil

O ambiente regulatório brasileiro evoluiu rapidamente na última década. O país consolidou normas robustas de prevenção à fraude, ampliou a exigência por controles internos e auditorias PLD/FT, intensificou as fiscalizações e aumentou as penalidades em casos de falhas de compliance.

Entre as medidas estabelecidas nos últimos anos, podemos começar destacando a Resolução nº4.595/2017, a primeira a exigir que bancos e instituições autorizadas pelo Banco Central implementem políticas formais e avaliações estruturadas de risco, criando uma função de compliance obrigatória dentro das operações financeiras. 

Já em 2020, a Circular nº3.978 introduziu a abordagem baseada em risco, exigindo que as instituições identifiquem, avaliem e eliminem continuamente os casos relacionados à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, complementada em seguida pela Carta Circular nº4.001, que detalhou os procedimentos e controles internos à serem executados. 

No mesmo ano, foi também anunciada a chegada do PIX e, com ele, novas medidas que revolucionaram o sistema de pagamentos brasileiro. A Resolução BCB nº1, instituiu oficialmente o arranjo de pagamentos e definiu seu regulamento básico, com os requisitos para operação, participação das instituições e regras para garantir a segurança das transações instantâneas desde o lançamento do sistema.​

Alinhadas à digitalização econômica e ao surgimento de novos arranjos financeiros, as Resoluções BCB nº 80 e nº 81 deram início a um novo ciclo de compliance para fintechs, exigindo controles internos robustos, avaliação estruturada de riscos e responsabilidade direta em casos de fraude. Elas equipararam as fintechs a bancos tradicionais em padrões de governança e prevenção, tornando o compliance um ponto central da operação. 

Outro avanço normativo de grande destaque nos últimos anos foi a instituição da Resolução Conjunta nº6, em 2023, que tornou obrigatório o compartilhamento de informações entre bancos e entidades autorizadas sobre os indícios de fraude em operações financeiras. A medida visa otimizar a resposta preventiva às tentativas de golpes e aos crimes financeiros no PIX.​

Com o número de fintechs crescendo 77% nos últimos 5 anos, surgiram também novas regulamentações para este setor. A Resolução BCB nº429, chegou para consolidar e atualizar diretrizes anteriores, incluindo obrigações específicas para fintechs e prestadores de serviços de pagamento, reforçando a importância de programas de compliance integrados e apoiados por tecnologia.

 

A intensificação regulatória no setor financeiro

O Brasil vive um momento de intensificação regulatória. A digitalização dos serviços financeiros e a explosão de novos modelos criaram um ambiente dinâmico, que exige mecanismos de controle ainda mais sofisticados. 

Em 2025, esse movimento ficou evidente com um pacote normativo do Banco Central que reforça segurança, governança e conformidade das fintechs e demais instituições conectadas ao sistema de pagamentos. A Resolução BCB nº 493/2025, por exemplo, aperfeiçoou o Mecanismo Especial de Devolução do PIX, exigindo a criação do “botão de devolução”, bloqueio imediato de valores suspeitos, novas regras para recuperação e notificações ao DICT. 

Mais recentemente, a Resolução BCB nº 501/2025 entrou em vigor, permitindo que bancos e instituições de pagamento bloqueiem ou recusem transferências para contas sob “fundada suspeita” de fraude, garantindo notificação imediata ao cliente e incentivando a transparência sobre os critérios internos adotados.

 

Como estruturar um programa de compliance financeiro

Estruturar um programa de compliance financeiro eficaz significa ir além da criação de políticas internas ou da adoção de sistemas de monitoramento. É sobre construir uma arquitetura integrada de controles, cultura e tecnologia, capaz de prevenir riscos, responder a incidentes e garantir alinhamento contínuo às exigências regulatórias. 

Tudo começa com uma governança sólida, definindo os princípios éticos da instituição. A partir dela, surgem políticas internas claras e atualizadas, orientando a conduta dos times e os controles aplicados às operações mais sensíveis.

Outro elemento essencial é o mapa de riscos, resultado de um processo estruturado de avaliação contínua. Nele, a instituição identifica os pontos mais vulneráveis, propondo controles proporcionais ao tamanho, complexidade e perfil de risco da instituição. 

Entram neste processo medidas de verificação de clientes, avaliação de empresas e beneficiários e investigações em perfis de maior risco, como PEPs e coligados. No setor financeiro, onde transações de alto volume e grande velocidade são comuns, este monitoramento do risco deve ser constante. 

Outro fator essencial é a capacitação das equipes. Como dito anteriormente, o compliance financeiro não é uma função isolada: envolve times de atendimento, operações, crédito, produto, tecnologia e até mesmo parceiros externos. 

Treinamentos regulares e campanhas internas de conscientização são essenciais para que cada colaborador entenda seu papel na prevenção de riscos e no cumprimento das exigências regulatórias. Falando ainda de cultura interna, promover canais de comunicação seguros para reporte e denúncia e realizar auditorias e revisões periódicas também são fundamentais na construção de uma estrutura sólida de compliance financeiro. 

como estruturar compliance

 

Por fim, não podemos esquecer do papel indispensável da tecnologia na manutenção do compliance financeiro, ainda mais em tempos de PIX, MED e outros avanços da economia digital.  

Soluções antifraude e sistemas de monitoramento são hoje indispensáveis. O módulo Antifraude Transacional do DeLorean, por exemplo, permite que as instituições detectem padrões suspeitos em poucos milissegundos, atendendo às exigências da Resolução BCB nº501 e integrando dados de todo o ecossistema através dos critérios da Resolução Conjunta nº6. 

Já o módulo Monitora PLD, acompanha continuamente clientes e operações, utilizando enriquecimento de dados com listas restritivas e internacionais, para determinar a probabilidade de risco associada à conta e gerar alertas automáticos de aprovação, bloqueio ou reporte ao COAF.

 

As mudanças no ecossistema de prevenção à fraude

Nos últimos anos, o ecossistema de prevenção à fraude tem exigido urgência estratégica, impulsionado por golpes digitais, a expansão das contas laranja, táticas de engenharia social cada vez mais sofisticadas e volumes recordes de transações através do PIX. Dados da Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor (ADDP) mostram que os golpes em pagamentos instantâneos dispararam em 2025, ultrapassando 28 milhões de registros entre janeiro e setembro.

Em paralelo, a inteligência artificial se consolidou como uma verdadeira faca de dois gumes: de um lado a tecnologia detecta padrões suspeitos em tempo real, identifica anomalias nas transações e gera alertas que ajudam a prevenir e mitigar os riscos de fraude; do outro, passa a ser também uma ferramenta para auxiliar no roubo de identidade, criação de deep fakes, bots e malwares que atuam no vazamento de dados sensíveis. 

É neste cenário que o compliance financeiro se faz mais necessário do que nunca, partindo inclusive como uma iniciativa das próprias instituições. O mercado tem adotado práticas de autorregulação, criando grupos de colaboração para compartilhar sinais de alerta, padrões de fraude e indicadores de risco, garantindo não só a troca de dados, mas a unicidade de registros entre eles.

Além disso, esse modelo colaborativo minimiza o risco reputacional ao adotar um programa de compliance integrado, com governança, análises contínuas e tecnologia. É desta forma que as instituições mostram ao mercado que estão comprometidas com a segurança do ecossistema e com a confiança de seus clientes.

 

Desafios na implementação do compliance financeiro

Implementar um programa de compliance financeiro robusto não é tarefa simples. As instituições enfrentam desafios que vão além da simples criação de políticas internas ou da adoção de sistemas de monitoramento. 

Logo de cara, um dos principais obstáculos é integrar diferentes áreas da instituição, garantindo que todos compreendam seus papéis na prevenção de riscos e na observância regulatória. Além disso, a resistência cultural também pode ajudar a prejudicar a efetividade do compliance, quando os colaboradores não compreendem a importância das regras ou não têm canais claros para reporte de incidentes. 

Outro desafio é a complexidade regulatória. O surgimento de pacotes normativos e constantes atualizações de órgãos reguladores como Banco Central significa que as instituições precisam se adaptar a mudanças frequentes e muitas vezes simultâneas. Traduzir todas essas exigências em processos internos claros e aplicáveis exige governança e capacidade de adaptação rápida.

desafios implementação compliance

 

Data analytics apoiando o compliance nas instituições

O volume, a velocidade e a complexidade das transações digitais no ecossistema financeiro atual tornaram inviável o monitoramento manual de conformidade. Em um ambiente de pagamentos instantâneos como o PIX e de regulação em constante evolução, o uso de data analytics surge como uma ferramenta indispensável para transformar a visão sobre o compliance, deixando de ser apenas reativo para ser também proativo dentro das instituições. 

O uso de dados permite a transição de rule-based para risk-based, isto é, deixam de apenas verificar a conformidade com as regras para adotar uma abordagem baseada em risco muito mais eficaz. Isso envolve a integração entre bases de dados internas (como transações e histórico de clientes) e externas (como listas restritivas e informações de mercado), para criar uma visão completa sobre o risco e em tempo real.

Além disso, a análise de dados também permite “retroalimentar” o sistema para que as próprias medidas de compliance também sejam ajustadas ou reinventadas a partir dos insights gerados pelas próprias instituições.

 

Compliance financeiro na prevenção do risco reputacional

O risco reputacional é, hoje, um dos fatores mais críticos para as instituições financeiras. Qualquer falha na prevenção às fraudes, descumprimento regulatório ou operação mal monitorada pode impactar rapidamente na confiança de clientes, investidores e parceiros. É justamente por essa razão que um compliance financeiro robusto e bem estruturado se torna indispensável. 

Ao combinar governança, políticas claras, supervisão contínua, análise de risco baseada em dados e soluções avançadas, as instituições conseguem identificar e mitigar riscos antes que eles afetem sua reputação, garantindo transparência, segurança e confiança no mercado.

Pesquisar

Assine nossa newsletter

*Ao assinar, você concorda com a política de privacidade.

Artigos relacionados

Acompanhe nossas redes sociais